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Tropa de Elite
do Estado, da Burguesia, da Tortura, da Corrupção,
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Depois do lançamento no Brasil do filme “A Tropa de Elite” (http://www.tropadeeliteofilme.com.br), com direção de José Padilha, este artigo anônimo foi divulgado na internet. O filme, que gerou vários e intensos debates no país e no exterior, aqui é criticado a partir de uma perspectiva libertária, em acordo com as lutas sociais e populares.

“Sustentamos que o Estado é incapaz de fazer o bem.
Do campo das relações internacionais até o das relações individuais,
só pode combater a agressão transformando-se o mesmo (o Estado)
em agressor, e só pode evitar o crime organizado
cometendo crimes bem maiores. (...)”

Errico Malatesta, 1916

Tropa de Elite, filme de José Padilha lançado em 2007, mesmo antes de sua estréia já vinha gerando grandes polêmicas e acaloradas discussões e causando tanto opiniões favoráveis quanto críticas duras. Mas seu conteúdo ideológico é o que mais interessa discutir. Baseado em um livro de um ex-integrante do BOPE (Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro), o filme apresenta, em um formato de ação “hollywoodiano”, um enredo simplista que reduz complexas questões sociais a dualismos ridículos, e é claro, sempre de um ponto de vista de soluções da extrema-direita ou da elite. O BOPE é apresentado como a única alternativa, honesta e livre de pecados, contra os traficantes, que “brotam”, sem nenhuma explicação, nas comunidades carentes, e aos corruptos e atrapalhados Policiais Militares. Além disso, temos os que seriam os “playboys” da zona sul, que só sabem fumar e revender maconha, mesmo que alguns, dotados de alma caridosa, procurem fazer trabalhos assistencialistas nessas comunidades.

Com os bons e os maus bem definidos, e o caos, a corrupção e a impunidade instaurados num mundo decadente, nossos “heróis da caveira”, “paladinos da justiça e da liberdade”, têm plena e total licença para matar. As torturas e violências são, de certa maneira, aprovadas por parte do público, já descrente de soluções de longo prazo em meio à desordem promovida pelos governos nesse país. Descrente e sem referências políticas que vão além da política institucional, da “esquerdalha” mofada e da bandidagem, acreditando muitas vezes que apenas medidas extremas, por parte da polícia e do Estado, resolverão questões sociais.

No filme, a missão do BOPE é o resgate de armas em posse dos traficantes além de outras incursões arriscadas e emergenciais nas favelas do Rio. Mas será que o BOPE surgiu para isso mesmo?

Na vida real, não apenas o BOPE, como outras polícias especiais, Guardas Nacionais e as mais variadas manifestações de repressão organizada, surgem como medidas ou políticas de impacto sensacionalista do governo. Sempre que crimes “terríveis” e a violência parecem estar incontroláveis, os artistas da Globo e os “cidadãos de bem” saem às ruas vestidos de branco clamando por paz ou basta, e é muito mais fácil e barato para os governos, além de gerar publicidade, criarem novas tropas especializadas em alguma coisa, comprarem mais armas e investirem em repressão para atender as demandas da elite midiática e burguesa.

Para o capitalismo pouco importa, pois até em situações extremas de violência há lucro e concorrência, vide o crescimento da indústria e do comércio da segurança (carros blindados, alarmes, armas pessoais, etc), indústria baseada no medo e no pavor instituídos. Como nos diz o anarquista Errico Malatesta, o Estado não faz o bem, muito pelo contrário, agride em nome da proteção e do bem estar, mas não o bem estar dos pobres e trabalhadores. Não quer resolver nada do social porque ele e as elites, seus patrões, são favorecidos pela miséria e pelo caos que eles mesmos criaram.

Alguns trabalhadores, moradores das favelas e periferias em meio ao fogo cruzado dessas ações, legitimam as ações da Polícia especializada ou de grupos milicianos (controlados sempre por vereadores e deputados federais, ou seja, braços do Estado), pois se vêem sufocados cotidianamente pela violência dos integrantes de baixa patente do tráfico de drogas (a alta patente está em Brasília, dentro dos quartéis da Polícia Militar e nas coberturas luxuosas de Copacabana), que atormentam ainda mais as suas vidas levadas com tanto sacrifício e dificuldade.

Porém, sem que neste processo a própria população se torne ativa politicamente e ela mesma cumpra o papel de restabelecer a ordem e a justiça, continuaremos escravizados e explorados. A organização popular é de suma importância, para o expurgo da violência organizada e para a construção social de base, tanto no que se refere à formação da consciência da juventude, que se corrompe nesse cotidiano, quanto na possível afronta aos que verdadeiramente só querem o mal coletivo e vão contra a constituição do poder popular, ou seja, os Estados, as tropas (paramilitares ou não) e as elites.

Para o Estado, até agora, foi melhor o caos e as inúmeras mortes nas comunidades pobres, assim como tiroteios e fornecimento liberado de drogas e armas, etc. Mas quando isso começou a se expandir para além dessas comunidades, tomando cada vez mais o asfalto e a atrapalhando a lucratividade de alguns empresários, que no Rio de Janeiro, por exemplo, estão afoitos pela especulação das terras do “paraíso turístico do Brasil”, então o Estado se mobiliza para combater aquilo que ajudou a criar. E o que será feito com todo o armamento e equipamento adquirido para tratar do conflito, quando a Polícia terminar o sua “missão” contra o tráfico? Com certeza, serão usadas contra o povo! Se para a elite, manter a ordem agora é, em primeiro lugar, combater o tráfico nos morros e favelas, em um segundo momento será combater o povo organizado! Não tenhamos dúvida disso! Eles nunca jogam para perder!

É com a mesma voracidade e violência que as forças do Estado atuam contra o povo organizado, criminalizando os movimentos sociais, prendendo militantes, “baixando o pau” em manifestações de rua e protestos, no dia-a-dia de mobilização, nos despejos contra ocupações do movimento de sem-teto e sem-terra, etc. Muitas vezes o Estado e a polícia vinculam os movimentos sociais ao tráfico, de maneira sórdida e mentirosa para ganharem a opinião pública e justificarem o uso do instrumento de repressão contra o povo. Ou seja, ao criminalizarem os movimentos sociais organizados eles garantem que os privilégios das elites não estejam ameaçados, protegendo o “direito” de uma parcela pequena de pessoas de permanecer com muito dinheiro, propriedades, de especular, de lucrar, de explorar, enquanto a maioria do povo não tem direito a nada, nem ao básico: moradia, saúde, educação, etc.

O principal instrumento para lutar e garantir nossos direitos essenciais é a organização. Acontece que para os governantes e elites só o Estado poderia garantir a organização da sociedade. O que é mentira! O Estado significa o controle da maioria do povo por uma minoria. Por isso nos enganam com as eleições, manipuladas por eles, dizendo que o Estado é democrático e por isso somos agredidos quando tentamos nos organizar e lutar sem ele!

Quanto a outros Estados que também fazem uso de tropas muito bem equipadas e armadas, munidas de discursos “democráticos”, podemos lembrar as guerras e as invasões do Afeganistão e Iraque pelos EUA (entre 2001 e 2003). Os Estados Unidos tinham a justificativa de estarem combatendo o terrorismo, no combate à violência que era promovida por governos ou facções islâmicas ditatoriais nestes países e para “garantir a paz e a democracia”. É com esta mesma justificativa que o Estado de Israel mata diariamente inúmeras pessoas na Palestina. Ou ainda, vale “ressuscitar” uma questão que está escondida dos nossos olhos desde que a seleção brasileira de futebol (em 2005) foi ao Haiti maquiar a ação do Exército brasileiro no país. Lembremos que no Haiti as forças armadas brasileiras lideram a invasão de comunidades pobres e a chacina dos moradores destas áreas. Dizia-se que esta ação (que ainda está em vigor no Haiti) era para controlar a onda de violência que assolava o país e “garantir a paz e a democracia”, sendo identificado que o foco estava nas áreas pobres. Mas fazem a gente esquecer que parte desta violência era efeito de anos de governo ditatorial haitiano, explorador e corrupto, apoiado e financiado pelos países “democráticos”. Enfim, um passado sujo bastante recente que devemos repudiar e denunciar!

E o que tem a ver esse panorama mais geral? Lembremos que a maioria das armas e drogas traficadas no Brasil é de procedência dos EUA ou com financiamento desse país, e as armas e táticas de repressão policial também vêm de lá e do Exército de Israel, assim como a ideologia repressora de seu Estado, patrocinado pelo governo dos EUA. Lembremos também que durante as primeiras ações do Exército brasileiro no Haiti, o Estado dizia que aquilo servia como um ensaio para o combate ao crime nas favelas do Brasil. E realmente tudo isso está servindo. Isso aconteceu mais concretamente desde que a Tropa de Elite começou a atuar
e depois o conhecido Caveirão começou a ser utilizado.

Em 2007 esta violência aumentou assustadoramente e todo o acirramento desta discussão em torno do filme anuncia o aprofundamento do caos. Acontece que, o que a população antes denunciava como fatos ocorridos através dos escrúpulos da corrupção policial, agora é legalizado e se firmou como uma estratégia do Estado. Desde que se iniciou a preparação do Rio de Janeiro para a realização dos Jogos Panamericanos, houve a promoção da “limpeza da cidade” com o terror causado pela chacina no Complexo do Alemão, onde mais de 40 pessoas morreram executadas pela Polícia em um só dia, e nos últimos meses houve as chacinas na Favela da Coréia e no Morro dos Macacos. Coincidentemente, no mesmo período, a Polícia tentou promover o despejo dos moradores da comunidade do Canal do Anil (cerca de 400 famílias), que habita o entorno do local de construção da Vila Pan-americana, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Aliás, só no último ano mais de 30 despejos aconteceram aproximadamente em toda a cidade do Rio, com o aval do aparato jurídico do Estado.

Aliás, o governo Lula anuncia que com as obras do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) em 2008, serão realizados muito mais despejos e repressão contra a população mais pobre e organizada. Se não, por que afinal a Secretaria de Segurança é a ponta de lança desta “política social”, o PAC? Só no Rio de Janeiro serão quase 500 mil famílias retiradas de suas moradias e comunidades e sem qualquer restituição. Outro caso desesperador também é o das comunidades que serão expulsas pelo projeto de Transposição do Rio São Francisco, no Nordeste, por morarem na faixa das obras ou pela falta de água em algumas regiões pelo impacto e degradação do Velho Chico. Todos estes projetos com muito dinheiro e idéias mirabolantes não são para resolver os problemas do povo mais pobre, mas para aumentar a paz e a lucratividade das classes abastadas, tenhamos certeza!

Todos sabemos que os políticos, governantes e elites estão sujos até o pescoço de crimes, corrupção, assassinatos, propinas, etc. Então, por que nossos heróis de uniforme negro, nossa SS dos trópicos, não se lança com bravura em missões de limpeza e ordem nos planaltos e senados da vida? Porque não fazem justiça com aqueles que são a causa do que eles dizem combater? Porque quem esta na mira da Polícia são os moradores de áreas pobres, independente do caráter ou da índole. O BOPE é um instrumento da elite.

Enfim, com as ações do BOPE (explicitadas hipocritamente no filme), o tráfico de drogas e armas concretamente tem seus dias contados? Com certeza não, pois onde há muito dinheiro há vontade do Estado de se manter e proteger os privilégios. Em todas estas ações, o Estado não tem o objetivo de garantir a paz para a maioria da população. A organização popular, sim, pode garantir. Lutemos por ela!

“Muito bem! Só há um remédio: melhorar o futuro. Temos que evitar, mais do que nunca, o compromisso, acabar com o abismo entre capitalistas e os escravos assalariados, entre dominadores e dominados, lutar pela expropriação da propriedade privada e a destruição dos Estados como o único meio para garantir a fraternidade entre os povos e a justiça e a liberdade para todos, e devemos nos preparar para levar a cabo estas coisas.” (Malatesta, 1916)



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